Por Patrícia Brocaldi(*)

 

Se você atua na cadeia do plástico, seja na petroquímica, na transformação, na reciclagem ou no mercado final, prepare-se pois, desde janeiro de 2026, iniciou-se no Brasil a maior transformação regulatória e tributária das últimas décadas, com impacto direto no custo, disponibilidade e competitividade de cada grama de polímero.

 

Embora muitos ainda enxerguem a Reforma Tributária apenas como uma reorganização de alíquotas, para a indústria do plástico o cenário é muito mais profundo. O que se iniciou em 2026 foi a convergência simultânea de duas megaforças regulatórias:

 

 

Juntas, elas redesenham a lógica de custo, decisão de materiais, estrutura de cadeia e competitividade industrial.

 

A Reforma Tributária: o que muda, na prática, para a indústria do plástico

 

Em janeiro deste ano, o Brasil iniciou a fase de testes de um novo modelo de tributação sobre o consumo, que substituirá gradualmente impostos já conhecidos da indústria, tais como PIS, Cofins, ICMS e ISS, por dois novos tributos: a CBS, de âmbito federal, e o IBS, de âmbito estadual e municipal. Embora a alíquota inicial seja simbólica, de apenas 1%, essa etapa já exige atenção das áreas fiscal, industrial e de custos, pois prepara o setor para uma transição que se estenderá até 2033.

 

Mais do que o percentual cobrado neste momento, o principal impacto da reforma está na mudança da lógica de cálculo dos impostos, que passa a permitir a recuperação de créditos ao longo da cadeia produtiva, reduzindo distorções históricas que sempre pesaram no custo industrial da cadeia do plástico.

 

O novo modelo elimina a cumulatividade e promete crédito financeiro pleno, permitindo que praticamente todos os impostos pagos ao longo da cadeia (energia, frete, manutenção, serviços industriais e insumos indiretos) sejam recuperáveis. Para a indústria polimérica, intensiva em capital, energia e logística, isso representa uma ruptura com décadas de “resíduos tributários” incorporados ao custo do produto.

 

Os produtores de resina, considerados a 1ª geração da indústria, têm a tendência do beneficiamento estrutural. A recuperação integral de créditos reduz o custo operacional e de investimento, diluindo ineficiências históricas do sistema atual. Benefícios fiscais regionais perdem relevância, e a competitividade passa a ser determinada por escala, eficiência energética, logística e tecnologia.

 

O grande desafio do polímero reciclado (PCR): crédito, formalização e competitividade

 

Se para o polímero virgem o novo IVA tende a trazer ganhos de eficiência, o cenário para o polímero reciclado pós-consumo (PCR) é mais complexo e potencialmente mais crítico.

 

Caso a alíquota plena do IVA seja aplicada integralmente ao PCR, e a base da cadeia (catadores, cooperativas e operadores informais) continue sem emissão de notas fiscais com recolhimento de tributos, o reciclador industrial ficará sem créditos para compensar. Na prática, isso pode significar um PCR até 26,5% mais caro que o polímero virgem, inviabilizando economicamente a economia circular.

 

Esse risco explica a relevância estratégica da PEC 34/2025 (PEC da Reciclagem), que propõe a criação de crédito presumido para a indústria de reciclagem, compensando a informalidade estrutural da base da cadeia.

 

Imposto Seletivo: quando o preço passa a induzir o material

 

Outro vetor decisivo é o Imposto Seletivo, apelidado de “Imposto do Pecado”. A possível inclusão de plásticos de uso único (SUPs) na lista de produtos tributados pode elevar o preço final de embalagens e itens descartáveis de polímero virgem em algo entre 10% e 15%.

 

Caso essa tributação seja confirmada, cria-se um diferencial de preço relevante que favorece materiais reciclados ou soluções com menor impacto ambiental, independentemente de sua eficiência técnica intrínseca.

 

 O Decreto Federal nº 12.688/2025: A "mão invisível" da sustentabilidade

 

Se a Reforma Tributária modifica a estrutura de custos, o chamado Decreto do Plástico redefine a demanda de mercado.

 

A partir de janeiro de 2026, novas embalagens plásticas colocadas no mercado brasileiro deverão conter o mínimo de 22% de PCR, com metas progressivas que chegam a 40% até 2040. Não se trata mais de estratégia ESG ou posicionamento de marca, mas de obrigação legal, com sanções em caso de descumprimento.

 

Além do conteúdo reciclado, o decreto impõe metas de recuperação via logística reversa, exigindo que 32% das embalagens colocadas no mercado em 2026 sejam comprovadamente coletadas e destinadas corretamente.

 

Ou seja, o Decreto Federal nº 12.688/2025 faz com que a demanda por PCR deixe de ser opcional e passe a ter alta rastreabilidade, formalização da cadeia de resíduos e contratos estruturados entre indústrias, recicladoras e cooperativas.

 

O grande paradoxo de 2026: O barato que pode sair caro

 

O cenário que se desenha é paradoxal:

 

 

O equilíbrio desse sistema dependerá de:

 

 

Para transformadores (3ª geração) e integradores/OEMs (4ª geração), isso significa que engenharia de materiais, engenharia econômica e compliance regulatório passam a ser indissociáveis. Para os líderes da indústria, a hora de agir é agora. O planejamento estratégico não pode mais ignorar a simbiose entre regulação e tributação.

 

  1. Auditoria da cadeia de valor

    • Avalie como a recuperação plena de créditos impacta o custo real de resinas, energia, frete e serviços.

    • Reavalie fornecedores de PCR: informalidade agora é risco financeiro direto.

  2. Preparação técnica e de P&D

    • Sua engenharia está preparada para formular produtos com 22% de PCR sem perda de desempenho?

    • Seu processo tolera variações de reologia, contaminação e estabilidade térmica do PCR em escala?

  3. Monitoramento regulatório

    • Acompanhe a PEC 34/2025 e a definição final do Imposto Seletivo.

    • Antecipe impactos em portfólio e precificação.

  4. Fiscal, compliance e dados

    • Prepare sua equipe para CBS/IBS, split payment e novos layouts fiscais.

    • Estruture sistemas de rastreabilidade para comprovar conteúdo reciclado e logística reversa.

 

2026 não é apenas um ano de transição. É o ano zero de uma nova lógica industrial para o setor de polímeros no Brasil. Empresas que tratarem a Reforma Tributária e o Decreto do Plástico apenas como temas fiscais ou ambientais perderão competitividade. As que integrarem engenharia, custo, material e estratégia regulatória sairão na frente.

 

Na nova indústria polimérica brasileira, não vence quem paga menos imposto — vence quem entende o sistema como um todo.

 

Saiba mais sobre o mercado de resinas lendo as colunas Petroquímicos e Reciclagem do portal da Plástico Industrial.

Imagem: criada pela autora

 

 

 

(*) Patrícia Brocaldi é engenheira de materiais com especialização em gestão stratégica de projetos. Atua no desenvolvimento de matéria-prima, soluções sustentáveis, eficiência de processo e engenharia econômica.

 

 

 

_______________________________________________________________________________________

Assine a PI News, a newsletter semanal da Plástico Industrial, e receba informações sobre mercado e tecnologia para a indústria de plásticos. Inscreva-se aqui.

_______________________________________________________________________________________



Mais Notícias PI



Indústria de máquinas vendeu mais em 2025

Levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) apontou melhora de desempenho do setor em 2025, apesar da retração das vendas internas no mês de dezembro. Redefinição dos destinos trouxe melhora para os indicadores de exportação.

03/02/2026


Amino Química investe em novo reator e vai intensificar a produção de PU Casting

A empresa do Grande ABCD adquiriu um novo reator de cinco toneladas e está prestes a iniciar uma linha de produção interna voltada para a fabricação de resinas de poliuretano (PU). A Amino também vai lançar novas resinas.

29/01/2026


Acrilys investe em nova injetora e aumenta a produção de moldes

A empresa gaúcha adquiriu uma injetora chinesa e está otimizando seus processos produtivos, além da fabricação de moldes para injeção de plásticos. A ampliação da matrizaria própria está nos planos.

23/01/2026